quinta-feira, 2 de abril de 2015

sábado, 7 de fevereiro de 2015

De placa!

Meu vizinho furioso
com o gol do Flamengo
em cima do time dele
dorme empalado
sob o olhar de desprezo
da esposa.

A mão direita da jovem
pedagoga
que circulara o busto
do administrador de despesas
e taquicardia

aponta em convicção
para o centro de campo
afirmando-lhe o gol
do destro recém chegado
que driblou o zagueiro
e chutou cruzado
para extirpar o jejum de vitórias
no campeonato.

Severino Figueiredo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Encontrei o amor brincando de rua
no esconderijo do mundo.

De cara no muro
contando dez pés
de manga, cajá,

o piá
sem camisa e farto da aula
de história

ria da facilidade
de se encontrar
dedos fora da cortina

dedos de gatinha angorá
frequentadora da rua
com a interseção da Virgem
sua mãe.

"Filha minha não sai,
e se sai é por pouco tempo.
Do jeito que o mundo anda..."

Costuma lembrar à vizinha
com cara de piada dita
pelo Faustão.

Encontrei o amor
na fidalga simulação
do Cidade Alerta:

triângulo amoroso
que deu em merda
na Avenida D. Pedro
I.

(As pichações
contra o aumento da tarifa
nem se moveram)

Severino Figueiredo

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Atriz

Se resmunga
a porta mal encostada do quarto
por ação do vento ou de parente
avisto você
passar atrasada
desculpando-se:

"as palmas duraram mais tempo".

Severino Figueiredo

sábado, 31 de janeiro de 2015

Onze contos de réis - 4

Te falar: nessa cidade que mal arrota e pede desculpas aos presentes, tevê ligada é brinquedo velho - com pintura nova - pra passar o tempo.
Bem verdade que só se fala da luta do Anderson Silva - a que horas ele dorme, se come alimentos que levam a primeira letra do nome do oponente, e sua preferência por cuecas de algodão.
Notícia de bomba não vi mais. Repórter tremendo na chamada ao vivo também não. Esses dotes humanos vêm esporádicos, à vez do olhar de moça que encanta de primeira.
Nunca mais, Cubas, passou um filme que preste no Space.
O que há é nocaute técnico da insônia - esse braço noturno alçado no meu pescoço - e a frustração do Galvão Bueno ao narrar, com delay, mais um capítulo miserável.

Severino Figueiredo

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Quando o Santa Inês anoitece - 7

O que me fala de teus motes
a madrugada
não está em amostra.

Pergunto se é mesmo esse silêncio

o modo que encaras o chão
na falta de assunto a tratar,
pois é o que faço.


Caço capim e lagartixas camufladas
para reanimar as bocas enterradas
com o assunto passado.

Ela diz que não sabe.
Que varias muito o uso dos dedos.
Há vez para o polegar
como para o médio.
Que não sabes ao certo
se é chão o que dizem ser chão,
ou se é uma parte de ti
exposta a olhos gastos...

Severino Figueiredo

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

CANÇÃO PARA ADORMECER MARIA

Se te chegar intacta a palma da minha mão,
não suja de efêmera criancice,
mas apertável -
e firme como o quedar de um boeing
e o sapateado da boneca de pano -
por profetas e profanos,

se te chegar essa palma,
e quiseres lidar com o conteúdo dela,
encontrando o ocioso desejo dos mortos
de que nossas sombras se interceptem
no muro grafitado pelo movimento feminista
da grande João Pessoa,

para fim de admirarmos a lagoa
do Parque Sólon de Lucena
enquanto as paradas de ônibus,
entristecidas,
confundem pés de chegada
com os de partida,

se te chegar essa palma,
trate-a com a tua -
menor e mais clara,
cor de plano de fundo do olhar -
como os pares da quadrilha junina
eternizam passos matutos de outro século.

Se te chegar essa palma,
leve-a para o cabelo,
para as orelhas,
para o confuso,
e adormeça,
adormeça...

Severino Figueiredo

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Onze contos de réis - 3

Charlie Hebdo é o single do ano, Cubas.
O mundo ainda caminha dormente depois da sesta por cima do braço. Na minha LCD 32 polegadas parcelada no carnê da Insinuante o atentado ganha adornos de humanidade. Adornos raros, salientes, típicos do exterior: o caos que muda a ordem das cores de outra bandeira é poético, faz repórter tremer na chamada ao vivo e vizinho me olhar de lado por conta da barba...
Não falo da passividade que me comporta ao caso; falo da distribuição dos pesos, dos dois a mais da matemática em relação ao português - como se a leitura das regras do motel fosse estilhaço comparado à contagem de notas e moedas pra pagar a carne.
Redação por redator há em cada beco dessa Cabedelo, Cubas. Em cada filho de pescador morto a pauladas na periferia pelo controle do tráfico das piabas. Em cada Maria Viúva chorando a pólvora num programa policial sensacionalista.
O fundamentalismo é o alter ego do mundo, Cubas. Diferente só o viral - a depender da geografia e da sofisticação do plano traçado semanas antes.

Severino Figueiredo

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

.

O poema de garbo,
desse que estampa páginas
de literatura brasileira
no Facebook,

que figura na lista dos 10+
da Revista Bula
e é musicado por um mártir
da mpb,

que eleva o poeta a centro de atenção
de um trabalho de conclusão de curso
da FFLCH,

como se faz?
se é que se faz,
se nasce com a frequência da brotoeja
no calor do nordeste
ou com o mistério do repente
no chão de rugas do agreste...

O poema de garbo -
costura francesa
com imitação à brasileira
na Uruguaiana -
quanto custa?


 Severino Figueiredo

sábado, 10 de janeiro de 2015

...


Não há revista da editora abril
nesta sala de espera.
Poderia assombrar a senhorinha
que ao meu lado
ouve baladas românticas
do player da recepcionista?

- Olhe como esse mundo
tá mudado,
meu filho.
Cabedelo não tinha
esse tanto de loja
que existe hoje.
Um tamanhão de carro
aqui e acolá
atravessando a cidade.
Tenho até medo
desses negócios...

Fosse um filósofo
com graduação na puc
do rio grande do sul
ouvindo a sapiência

diria que a certeza
veste saia de linho
e cantarola Janis Joplin
pra aquietar o glaucoma.

Severino Figueiredo

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Onze contos de réis - 1

O mundo, Cubas, o mundo sempre foi louco. Desses loucos que atravessam a Epitácio de bíblia na mão e capa do super-homem. O louco da capa, se é que é louco, se é que é capa o que veste, prende olhar e liberta deboche dos sanos no ponto de ônibus.
Confesso: reitero a alcunha muitas vezes ao dia. A bíblia não é bíblia e a capa é outra. A primeira vai batizada de olhar; a segunda é qualquer enfiada de bola para um arremate cruzado do improvável atacante de nome composto. Arnaldo Gabriel. Bom nome composto para um jogador medíocre com mercado na Arábia Saudita.
A diferença, Cubas, a diferença está no número de roupas... Pendura-se a costura com a frequência do obsoleto.
O foco vai nas roupas. Esquece-se dos pregadores, do cordão estendido entre dois dedos médios - distantes entre si. Esquece-se, agora, do sopro. Da loucura em movimento. Do dirigente medonho que dissera regalias sobre Arnaldo...

E tu, que achas da Cabedelo ociosa?



Severino Figueiredo

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

À flor que ora no Cazaquistão

Quem dirá do circo
a necessidade da fuga?

A versão do corpo
trapezista
que arranca suspiros e infâncias
das cadeiras
vaga cuneiforme como qualquer outra.

O palhaço de cor
e maquiagem litúrgicas
encontra nos olhos da Paraíba
a maldita estrangeira
que deixou em Minas -
na bodega de Lúcio
enquanto pedia coalho
pro café da trupe.

Quem dirá do circo
a necessidade do fogo?

O trabalho contrarregra
que apanha compreensão
no malabar mal sucedido...

Severino Figueiredo

domingo, 4 de janeiro de 2015

Quando o Santa Inês anoitece - 6

Quatro ceias
de estreitar relações com a morte,
um horizonte de luzes
ainda incandescentes
e um emaranhado de ruas
que dão a outras ruas
tapetes de mesmo artesão...



Figuras descritas
à base de um comodismo saudoso -
se bem que saltou de teus calos
definição absurda para a saudade.
Absurda em excelência
comparada à pontaria escassa
da gente que descansa
agora.

Disseste por alto
a necessidade de viver à sombra
de um albergue limpo e barato
antes de expor coragem
à natureza dos raios UV.

Sumir mata adentro
para alastrar migalhas d'água
na aldeia em festa
por tua aparição.

Invadir o mar
na altura dos pés
crendo na finitude das ondas...



Um horizonte de luzes
ainda emaranhadas
e a indecência das ruas
que dão a outras ruas
tapetes de mesmo artesão:

falaram a ti
de mim
um feixe de lembrança?

Severino Figueiredo

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Quando o Santa Inês anoitece - 5

O pecado dorme esculpindo
hecatombes de cera
depois de olhar pela janela
a mesma rua da manhã
de mesmos traços
agora escassos
de nitidez e ninharia
d'algum pardal
que descansasse o voo.

O pecado possui porte de garbo...
Conforta atrás do pano distante da moda
verossimilhança alguma
com meus passos deixados na areia
da miramar.

Se percorro meia lonjura
no corpo do pecado
é chegado o covil de alarmes
no punho daquele.

Alarmam por necessidade:
de devolver a ferpa à madeira
e o inseto ao ar.
De percorrer meus ombros
e orelhas
ao porvir do olhar.

Meia lonjura a mais
seria necessária
para alcançar-lhe a face.

Não a faço por respeito ao explícito
que requer remissão.

Remissão de batina e latim
que não condiz com a verdade
.


Severino Figueiredo